Candida Mendes Braz

Uma história das vereadoras em Ponta Grossa – Parte I


Por Gisele Barão e Luciane Justus , em 8 de março de 2016


Importantes lutas pela igualdade marcaram o final do século XIX e início do século XX, desde os movimentos abolicionistas e republicanos. Nesse contexto, o movimento feminista levantava bandeiras como o direito das mulheres de frequentar os bancos escolares e  o mundo do trabalho. O sufrágio feminino, direito de votar, é uma das principais conquistas desse período.

     O primeiro país a reconhecer mulheres como eleitoras foi a Nova Zelândia, em 1893. Na América Latina, o pioneiro foi o Equador, em 1929. No Brasil o voto feminino é permitido (mas não obrigatório) somente em 1932, no governo de Getúlio Vargas. Ainda assim, havia restrições: só eram atendidas pela lei as mulheres casadas com autorização do marido, viúvas e solteiras com renda própria. Em 1934, as limitações foram derrubadas, e todas poderiam votar e ser votadas.

     Quase duas décadas depois, Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, elege sua primeira vereadora: a funcionária pública Cândida Mendes Braz, que completaria 100 anos em 2017. A história dela e das outras mulheres que atuaram em cargos eletivos na cidade tem poucos registros, embora todas tenham uma importante contribuição para a formação de políticas públicas em Ponta Grossa. Por isso, ao longo desta semana, o Maria Pauteira recupera em uma série de reportagens a trajetória daquelas que ocuparam uma cadeira no legislativo municipal.

Cândida Mendes Braz, primeira vereadora de Ponta Grossa. Foto: Arquivo da família

     Até 2012, Ponta Grossa elegeu apenas nove mulheres na Câmara de Vereadores. Nenhuma delas foi presidente da Casa. Quem permaneceu por mais tempo no cargo foi Alina de Almeida César (PMDB), que teve quase três mandatos completos. Atualmente, a única vereadora em atividade é Adélia Souza (PSD). Apenas uma ponta-grossense atuou como deputada federal: Selma Schons, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT). Ponta Grossa nunca teve uma candidata a prefeita, e três se candidataram a vice-prefeita: Elizabeth Schimidt (atualmente no PSB), em 2000, Selma Cogo (PV) em 2008, e Leontina Stadler (PMDB), nas eleições de 2012.

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“Dona Candinha”: a combativa

     Cândida Mendes Braz, filha de Benedita e Octávio Mendes, nasceu em 13 de novembro de 1917, em Ipiranga, cidade a 175 km de Curitiba. Em 1938, casou-se com Aparício Braz. O casal morava no bairro de Olarias e teve duas filhas: Laís e Leni. Cândida trabalhou como servidora pública na Agência de Rendas e exerceu dois mandatos como vereadora em Ponta Grossa pelo PTB, entre 1951 e 1959. Conhecida popularmente como “Candinha”, a vereadora era leal com amigos e familiares e muito firme no meio político.

     A família conta que, em um de seus célebres discursos na Tribuna da Câmara Municipal, disse certa vez: “O rico, que tem de tudo, dorme em colchão de mola, enquanto o pobre, esse coitado, dorme na cama de pau duro.” Em outra ocasião, disse: “Tem muita gente aqui me metendo o pau por trás, quero ver ter a coragem de me meter o pau pela frente.” Em 1954, subiu em um palanque e deu uma bolsada no rosto de um deputado estadual candidato a prefeito.

     Nos seus mandatos, participou das Comissões de Agricultura, Indústria e Comércio; Viação e Obras Públicas; e Finanças, Orçamento e Tomada de Contas.

      Dona Candinha morreu no dia 5 de abril de 1968, em decorrência de um câncer, e deixou um importante legado na história de Ponta Grossa e da própria família. Uma de suas filhas, Leni Braz, funcionária da Prefeitura por 28 anos, herdou o interesse pela política. Em 1997, aos 49 anos, candidatou-se a vereadora em Ponta Grossa, mas infelizmente, com problemas de saúde, morreu em agosto do mesmo ano.

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 Fotos: arquivo da família

Em 1995, a Lei nº5.194, de autoria do então vereador Rogério de Paula Quadros, deu o nome da pioneira a uma rua da cidade, no bairro de Uvaranas.

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 Foto: Gisele Barão

     Cândida deu início à história da participação feminina na política partidária na cidade. Mas desde então, Ponta Grossa só elegeu mais oito vereadoras, o que evidencia a baixa representação das mulheres no campo da política. Com apenas uma mulher atuando como vereadora hoje, a cidade está abaixo da média nacional – que fica em torno de 10% de mulheres eleitas em cargos de representação em municípios e estados.

     Isso indica as condições desiguais de participação na vida pública por meio da política formal, segundo a jornalista e pesquisadora de gênero da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Karina Janz Woitowicz. “As dificuldades para a inserção das mulheres na política são, em um primeiro momento, estruturais, uma vez que ainda se percebe práticas discriminatórias por grande parte dos partidos, que privilegiam candidaturas masculinas. Além disso, os obstáculos são também culturais, pois envolvem estereótipos de gênero que tendem a afastar as mulheres dos espaços de poder, por serem consideradas menos aptas à vida pública e mais voltadas ao espaço doméstico, dividido entre o trabalho e a família, em uma perspectiva bastante tradicionalista”, diz.

     Para a pesquisadora, a cidade perde por não oferecer condições igualitárias de participação e, por consequência, excluir demandas que poderiam estar mais voltadas à garantia dos direitos de todas as mulheres.

     Diante desse cenário, recuperar a história das vereadoras de Ponta Grossa é uma forma de reconhecer a força de seu trabalho e, ao mesmo tempo, incentivar a inclusão das mulheres na política partidária. Nesta quarta-feira (09), publicamos a segunda parte da série de reportagens, sobre outras ex-vereadoras da cidade.

* A equipe da Maria Pauteira agradece à família de Cândida Mendes Braz pela gentileza de ceder as imagens

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