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Uma história das vereadoras em Ponta Grossa – Parte II


Por Gisele Barão e Luciane Justus , em 9 de março de 2016


Depois que a primeira vereadora da história de Ponta Grossa, Cândida Mendes Braz, deixou o cargo, em 1959, demorou 30 anos para que a cidade elegesse uma mulher novamente. O período era de reconfiguração do país, estabelecimento da constituinte de 1988 e, em âmbito municipal, da criação das leis orgânicas. As forças políticas e econômicas se articulavam no cenário de disputas do Brasil pós-ditadura militar.

     Segunda vereadora da história de Ponta Grossa, a agropecuarista Sandra Queiroz teve interesse pela política partidária justamente por estar envolvida, na época, com questões de âmbito nacional. Em um contexto em que fervilhavam as discussões sobre a reforma agrária, nos anos 1980, a ex-vereadora uniu-se com outros produtores rurais como Ronaldo Caiado e Abelardo Lupion, da ala conservadora,  para debater a nova Constituição Federal através da União Democrática Ruralista (UDR), entidade que confrontou a questão da reforma agrária, uma das demandas sociais não atendidas pela constituição e que integram a luta dos movimentos sociais até hoje.

     “Eu era a única mulher com essa experiência. Já tinha vindo com uma faculdade de Agronomia, em 1972, quando as mulheres não faziam Agronomia”, conta ela, formada na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Com a experiência no Congresso Nacional, Sandra sentiu necessidade de integrar a política partidária. “Voltei [para Ponta Grossa] com o espírito de me candidatar e de marcar uma época dentro da cidade”, conta.

     Sandra vem de uma família tradicional na agropecuária e na política ponta-grossense – Otto Cunha, prefeito em 1983 e deputado federal em 1990, e o deputado estadual Plauto Miró Guimarães (DEM), são seus primos. Mas quando se candidatou a vereadora pelo PL em 1988, aos 30 anos, optou pelo sobrenome do marido e retirou o sobrenome tradicional da família, na tentativa de construir uma trajetória independente na política. “A história da minha família contribui, claro, mas hoje eu me chamo Sandra Queiroz”, explica.

Prioridade para as políticas do agronegócio

     Como vereadora, entre 1989 e 1992, durante o mandato de Pedro Wosgrau,  Sandra concentrou seu trabalho nas questões agrárias. Os projetos da área rural em Ponta Grossa no seu mandato aconteceram, segundo ela, devido à relação fortalecida entre o legislativo e o executivo. Define como uma de suas principais preocupações “o fortalecimento das instituições de pequenos produtores”, colaborando na criação de associações de produtores– a feira da uva, realizada até hoje na cidade, começou a se estabelecer nesse período. Também defendeu melhor estrutura para as estradas rurais e a profissionalização dos produtores.

      Além do agronegócio, a ex-vereadora se envolveu em discussões da área cultural, como tombamento histórico – da Mansão Vila Hilda e da Estação da Rede Ferroviária, por exemplo; e na área social. É de autoria dela, em parceria com o então vereador Rogério Serman, a Lei 4.552/91, que determinava a obrigatoriedade do atendimento prioritário pelas agências bancárias aos idosos com mais de 65 anos, aos deficientes físicos, às mulheres grávidas, às mães com crianças de colo e aos doentes graves.

     Sandra também foi relatora da Lei Orgânica do Município em 1989, quando ajudou a elaborar principalmente alguns pontos relacionados à agropecuária e à cultura.

Mulheres

Por ser a primeira mulher após 30 anos da saída de Cândida da Câmara Municipal, a ex-vereadora conta que teve enfrentamentos com outros parlamentares. “Quando eu entrei, a vontade [deles] era me fritar. Independente disso, terminei amiga de todos”, conta. Sandra não se identifica como feminista, mas teve trabalhos direcionados a necessidades femininas. “Eu nunca fui ligada a políticas feministas. A vida inteira, a minha batalha dentro das políticas para mulheres sempre foi empresarial. No sentido da profissionalização da mulher”, diz.

 Em seu gabinete, recebeu frequentemente visitas de mulheres, principalmente do meio rural. “Na época, eu era uma das únicas pessoas que entravam nas colônias russas. Os problemas eram trazidos a mim pelas mulheres”, conta.

 Após encerrar o mandato, Sandra não teve interesse em reeleição, para se dedicar  aos negócios da família. Anos depois, assumiu a Secretaria Municipal de Agricultura, durante gestão do prefeito Jocelito Canto (1997-2000). De lá para cá, atua na política classista. Foi presidente da Sociedade Rural de Ponta Grossa e integra a diretoria da Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (Acipg).

 A parte III da série “Uma história das vereadoras em Ponta Grossa” apresenta alguns exemplos e ex-vereadoras que, assim como a Sandra, tiveram atuação política mesmo antes ou depois de passar pela Câmara Municipal.

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