IMG_4992

Uma história das vereadoras em Ponta Grossa – Parte IV


Por Gisele Barão e Luciane Justus , em 11 de março de 2016


Nas eleições de 1996, Ponta Grossa renova o quadro de mulheres na Câmara Municipal. Claudete Dallabona e Nassima Sallum não se reelegem. As duas vereadoras eleitas naquele ano, Ortência da Rosa e Selma Schons, são fruto de um semelhante contexto político e social. Naturais do interior do Rio Grande do Sul e filhas de agricultores, elas vivenciaram um período de estruturação dos movimentos sociais e quando despontaram  diversas lideranças da esquerda no país.

Ortência da Rosa: proximidade com movimentos sociais

Ortência Gorete Matias da Rosa nasceu em Santa Maria (RS), e na juventude foi influenciada por esses acontecimentos, numa região onde ganharam força o movimento operário e estudantil. “Sempre fui inquieta, quando criança via na região onde meus pais moravam muitas dificuldades, muitas injustiças. Eu não gostava disso e comecei a participar dos movimentos sociais. Nessa época, estava surgindo o PT com Olívio Dutra”, lembra a ex-vereadora.

     Em 1984, Ortência chega a Ponta Grossa para dar continuidade aos estudos no Colégio das Irmãs Calvarianas, na Vila Cipa, se depara com as mesmas dificuldades da periferia de sua cidade natal. “Muitas famílias não tinham água, luz. Aí começamos organizar e ir à luta para reivindicar esses direitos”, conta Ortência. Nessa época, conheceu o deputado Péricles de Mello e se candidatou pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que chegou a Ponta Grossa em 1980. Nas urnas, Ortência não conseguiu se eleger, mas assumiu como suplente do então vereador Péricles em 1992, quando ele se torna deputado estadual.

camara ortencia

Arquivo de Ortência da Rosa

   Sem muito apoio financeiro, as campanhas de Ortência aconteceram no “corpo a corpo”, algo comum no fim dos anos 1990, quando as campanhas políticas eram menos midiatizadas e se fortaleciam em comícios, por exemplo. Ela reuniu amigos e familiares na busca de votos pelos bairros. Segundo a ex-vereadora, tanto o fato de são ser ponta-grosssense quanto a filiação ao PT fizeram de seus dois mandatos períodos de intensa disputa.

 noticiaortencia

Acervo da Casa da Memória de Ponta Grossa

     Quando se casou, em 2000, surgiu a oportunidade de deixar o Brasil: “Foi uma decisão muito difícil, pois eu sempre gostei da militância. A política já estava perdendo sua verdadeira finalidade de ser guardiã dos direitos humanos, com muito interesse pessoal e muito investimento financeiro”, diz. Há nove anos ela mora na Flórida, nos Estados Unidos, e trabalha como chefe executiva de uma churrascaria.

     Mesmo longe, a ex-vereadora acompanha as notícias da cidade e do país, pelas redes sociais e por relatos dos seus irmãos, um deles atualmente vereador no Rio Grande do Sul. Ela considera que vive numa realidade muito diferente: “Aqui, mulheres, crianças e idosos são prioridade nas leis, e a cultura na América é menos machista”. Ortência pretende voltar ao Brasil em dois anos e atuar nos movimentos sociais que, segundo ela, devem ser resgatados e fortalecidos, assim como os sindicatos.

Selma Schons: a única mulher ponta-grossense a atuar na Câmara Federal

     Natural de São Martinho (RS), a professora aposentada Selma Schons mudou-se Ponta Grossa em 1973 e também foi eleita vereadora em 1996. Em 1978, formou-se em Serviço Social – também tem mestrado e doutorado na área. Filha de agricultores, a ligação com a terra ajudou a definir sua área de atuação política. “A questão ambiental sempre me perturbou muito, porque nós somos de uma região muito plana, a região das missões, que nos anos 70 foi destroçada pela questão do agronegócio”, explica.

     Na década de 1980, começou a trabalhar como professora no curso de Serviço Social na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). A experiência como assistente social na prefeitura a levou a conhecer os bairros da cidade. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores e foi eleita a vereadora aos 44 anos. Entre os projetos apresentados, está a Lei 6300/1999, que define Áreas de Interesse Ambiental no Município. Nesse período, também articulou a o Fórum das Águas dos Campos Gerais. “Na época, levantamos a questão da poluição do Alagado”, conta. O Fórum foi reativado por outras entidades há cerca de dois anos.

      Quando o deputado federal Jorge Samek foi convidado para presidir a Itaipu Binacional, em 2003, Selma assumiu sua vaga, dando lugar a Alina de Almeida César (PMDB) na Câmara Municipal. Na Câmara Federal, o cuidado com a água, a educação infantil, os indígenas e os direitos das mulheres ficaram no centro de seus interesses. Também atuou com a ONG Cfêmea – Centro Feminista de Estudos e Assessoria.

SSH ao 15º Aniversário do CFEMEA Mesa: Dep. Janete Capiberibe, Dra. Maria Luara Sales Pinheiro, Rep. a Min. Nincea Freira da SEPM; Sra. Guacira césar de Oliveira-Diretora do CFEMEA e Dep. Iara Bernardi Data: 29.04.04 Foto Bernardo Hélio Dep.Selma Schoms(Tribuna) Data: 29.04.04 Foto Bernardo Hélio

Selma no mandato de deputada federal, no aniversário da ong Cefemea. Foto: Bernardo Hélio/Acervo Selma Schons

   Depois de 10 anos de atuação na política partidária e sem se reeleger como deputada federal, Selma não teve mais interesse em candidatura. Quando questionada sobre a razão dessa escolha, diz que a política não é sua profissão. “Isso não é uma carreira. Se um professor exerce mandato de vereador, continua sendo professor”, diz. Selma deixou a UEPG em 2013 e hoje vive da aposentadoria como professora. Ela diz ter abandonado a vida pública com uma postura crítica. “Eu não saí [dos mandatos] decepcionada. É claro, eu queria que as coisas andassem mais, mas a política tem muita coisa para melhorar no Brasil. Em parte, a sociedade tem razão de ficar estupefata. Mas ela mesma, por não valorizar o que seria a política, alimenta isso”, conclui.

 Na quinta parte da série de perfis das ex-vereadoras de Ponta Grossa, o Maria Pauteira recupera a história de Alina de Almeida César e Ana Maria Holleben.

Colabore!

Você tem sugestões, informações, fotos ou documentos sobre as ex-vereadoras de Ponta Grossa? Envie pra nós! jornalismo@mariapauteira.com.br