Foto Adelia Câmara PG (2)

Uma história das vereadoras em Ponta Grossa – Parte VI


Por Gisele Barão e Luciane Justus , em 6 de abril de 2016


Final – Uma única mulher na Câmara Municipal e a expectativa de mais diversidade na política

A única mulher que exerce o cargo de vereadora atualmente em Ponta Grossa é Adélia Souza (PSD). Nas eleições de 2012, a professora Ana Maria (PT) chegou a ser reeleita para um terceiro mandato, mas renunciou após as denúncias de autosequestro, ainda em 2013.

     Antes de assumir um cargo eletivo, Adélia teve 20 anos de atuação na área da saúde. Ela coordenou as campanhas para vereador do atual vice-prefeito Dr. Zeca (PSD), que teve dois mandatos na Câmara Municipal, de 2005 a 2012, e atuava no atendimento à população. Quando surgiu a oportunidade de Dr. Zeca ser vice-prefeito de Marcelo Rangel (PPS), ela se candidatou e foi eleita vereadora com 2.311 votos.

     Por conta do histórico da vereadora, as pessoas que a procuram no gabinete pedem melhorias principalmente nos temas relacionados à saúde. Também é nessa área que se concentram alguns de seus projetos: a lei nº 352/2013, que prevê ações preventivas para o “Outubro Rosa” em Ponta Grossa – período dedicado a conscientização sobre o câncer de mama e a saúde da mulher de maneira geral; e a lei nº 477/2014, semelhante à anterior, institui ações para o “Novembro Azul”, exigindo campanhas de mobilização para a saúde do homem – ambas as campanhas já são adotadas internacionalmente, apenas não existia previsão desse tipo de iniciativa na legislação municipal.

     Ela é responsável ainda por iniciativas como a lei nº8.280, que institui a Semana da Paz (campanha contra a violência) e a lei nº208/2013, que obriga escolas e creches municipais, além de outros locais públicos de diversão, a instalar brinquedos adaptados para crianças com deficiência.

     “Torço para que esse ano entrem mais mulheres na política”, diz a vereadora. Por outro lado, ela acredita que as ações junto à comunidade não dependem de cargos na política formal. “Mas é importante a mulher participar. Hoje está melhor do que nos anos 1990. O povo está interagindo mais, está no meio da política. A mulher tem que ter seu espaço”, diz.

Mais diversidade

A situação local reflete o cenário da Assembleia Legislativa, do Congresso Nacional e do Senado, além das Câmaras Municipais de grandes cidades do Paraná, todos com pouca participação de mulheres. Na comparação entre cidades de grande porte como Londrina, Curitiba, Foz do Iguaçu, Maringá e Cascavel, Ponta Grossa tem a segunda representação mais baixa.

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     O professor do departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa Almir Nabozny entrevistou, há  dez anos, ex-vereadoras da cidade em um estudo sobre a participação política feminina na periferia. “O que se reconheceu é que elas não tinham a perspectiva de uma política diferenciada entre homens e mulheres”, conta. Na pesquisa, ele identificou algumas parlamentares interessadas em ecofeminismo, por exemplo, mas o fato de determinadas mulheres se tornarem vereadoras não implicou necessariamente em políticas de gênero.

     “O processo político é atrelado ao capital partidário, é profundamente determinado pelas condições de acúmulo de capital de outros candidatos”, diz. Além do capital político, ocorre uma influência pelas relações profissionais –  por exemplo no caso da vereadora Adélia, cuja visibilidade está bastante ligada à área da saúde.

     Nesse cenário, as candidatas com mais recursos durante a campanha se beneficiam no número de votos. A visibilidade delas também está relacionada às questões econômicas, o que acaba excluindo as mulheres de baixa renda do processo político. “Na periferia, os recursos são acentuadamente mais desiguais”, diz o professor. Outra questão que colabora para a pouca participação dessas mulheres nos partidos é a reprodução dos papéis sociais de gênero. Algumas ocupam lideranças nos bairros, mas também acabam cumprindo dupla ou até tripla jornada para trabalhar e cuidar da família, ficando sem acesso à política partidária.

Onde elas estão?

A baixa representatividade feminina no legislativo municipal não significa que elas não participem da política de outras maneiras. “As mulheres são maioria nas associações de moradores, como lideranças comunitárias, ocupam papel destacado no trabalho de base desenvolvido por instituições religiosas, atuam em entidades sociais diversas, mas não conseguem – e muitas vezes nem pretendem – chegar à política formal”, explica a jornalista e pesquisadora de gênero da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Karina Janz Woitowicz. Portanto, não há desinteresse ou participação reduzida das mulheres na política. É preciso considerar, segundo a pesquisadora, que existe desigualdade no acesso à política formal para as mulheres.